acostumado com a velha regis, o pequeno bolido seguia lepido pela pista chuvosa em direcao ao sul do pais.
la' pelo km 546 perto da barra do turvo teve um surto.
entrou numa curva, travestiu-se de skate, escalou a mureta de protecao, deslizou longamente.
acenou com pachorra pro desfiladeirinho que aos poucos se descortinava aos seus olhos.
e acabou ficando por ali mesmo.
em cima da mureta.
todo fodido.
pendurado em 2 rodas.
tomando chuva.
o limpador de para-brisa trabalhando 'a toa.
num nada de tempo juntou matungo que nao acabava mais saido do meio da serra.
tipo um ajuntamento de formigas.
e logo a trupe toda colou na mesa de sinuca dum bar bastante suspeito que ficava um pouco mais abaixo.
no meio do servir cafe, do palavrorio abestalhado de sempre que rodeia acidentes, da policia rodoviaria que demora uma eternidade para dar as caras, do guincho que nao chega nunca, da torre de celular caiu e por isso ninguem tem sinal de celular pra falar com ninguem, e por ai vai, vao surgindo tambem as historias de coisas e causos varios.
o tempo vai se preenchendo.
o dia muda de agenda.
magrelos cachorros acorrentados e fora de suas casinhas tomam chuva no cocoruto.
casebres de madeira se aguentam debaixo de cascatas formadas pela chuva e vindas da serra com apetite de ir mais e mais longe.
um libanes verdadeiro de fala enrolada (outro que tinha rodado na mesma curva ha' pouco) conta que tinha construtora no libano e veio pro brasil depois de quebrar e acredita que israel e o libano vao se acertar logo mais.
que o que ainda rola sao uns tarados duns velhos de cabeca dura que estao fora do contexto do mundo atual onde tudo se liga e interliga.
que em mais 1 ou 2 geracoes nego vai chegar num consenso e olhar pro hoje e nao pro ontem.
as quenguinhas de perna torta do tal bar suspeito, seus air-bags de fuba', seus dentes podres, olhos matreiros e caras sofridas vao se acercando do povareu do jogo.
metem conversa mole na orelha de eventuais poleiros.
a chuva ao fundo transformando aquele evento num riders in the storm digno de filme.
logo pinta mais um carro na famigerada curva.
capota.
me junto ao libanes, matungos e quengas.
acudimos.
mais uma vez ninguem se machuca.
era o terceiro acidente da tarde.
o setimo do dia.
e 11 no dia anterior.
mais gente na sinuca.
mais causos.
diz que alguns dos matungos que eram uns bandidinhos de merda metem oleo na pista para ele escorrer em dias de chuva e depois de nego se dar mal eles roubarem carga.
vale o que for.
melancia.
eletrodomestico.
enfim, usaveis e comestiveis.
a quenga-mor dona do buraco diz que devia matar caboclo dessa classe (e devia mesmo).
serve mais cafe'.
e' uma simpatia - mas fala que dava dor no ouvido.
nao acabava nunca a duracel da matraca dela.
- ei dona, manda la' mais uma ficha de sinuca se faz favor.
gelada melhor nao tomar, diz ela, que depois a rodoviaria te mete no bafometro e voce nunca vai conseguir explicar que focinho de porco nao e' tomada.
conta dum caminhoneiro que outro dia tinha parado no bar.
desceu que nao conseguia andar sem perder as chinelas, aproximou-se do balcao, pediu uma dose.
ela negou.
ele reclamou.
no fim tomou meia, se meteu de novo na cabine do bichao dele, partiu sabe la' pra' onde ia nem se ia chegar ou matar alguem no meio do caminho.
e esqueceu um pe' do chinelo pra' tras o filho da puta.
chega o guincho.
mais historias.
- sabe que outro dia capotou um caminhao carregando porco ?
- os porcos de criacao sao uns estupidos.
- ficaram la' abestalhados.
- nao se meteram pela serra afora.
- meti um no meu kadet.
- e olha que o bicho era grande.
- era grande e fedia muito.
- pesava uns 170 kilos o diabo do porco, mas a carne do bicho era ruim.
- agora pior que o trabalho de meter ele no banco de tras e a carne ser ruim foi a fedentina nojenta que impregnou no carro.
- vendi a porra do kadet logo depois.
- nao tinha cristao que guentasse o cheiro que ficou no carro !!
bom, no final das contas deu tudo certo e caguei pro que e' ferro amassado.
estrada e' mesmo aventura, cada dia dum jeito.
qualquer hora paro pra' tomar mais cafe' com a matungada, encontro o libanes em uniao da vitoria, de repente metemos todos um processo no dnit.
o case : danos sofridos e periclitacao de vida.
o outro lado da moeda : nao tivesse rolado o troco donde eu ia arrumar essas historias de gente que a gente nao ve todo dia ?
gente com quem a gente nao conversa.
nao sabe quem e'.
o que sofre.
como vive.
o que faz.
vida leva eu, que com voce eu vou indo de boa !!
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Ai como eu amo! Lindo texto. As pessoas e suas histórias são o melhor combustível do mundo.
ResponderExcluirE antes que eu me esqueça: seu fio da puta! vai devagar nessas estradas. Só tenho um ogro, sem estepe, porra!