quinta-feira, 25 de agosto de 2011

Os mercadores de Veneza

Antonio Prata

Foi com grande assombro e não menor repúdio que eu descobri, dia desses, que as estantes dos supermercados chamam-se gôndolas.
Até então, tinha cá para mim que gôndolas eram utilizadas única e exclusivamente para levar casais apaixonados, espiões russos e turistas japoneses pelos canais de Veneza.
Jamais imaginaria que esse mesmo substantivo pudesse, encalhado num piso de linóleo e sob o tremelicar quase imperceptível das lâmpadas fluorescentes, sustentar pacotes de biscoito, caixas de sabão em pó, gordura vegetal hidrogenada.
Nunca fui a Veneza.
Talvez seja melhor assim.
Sua existência, não confirmada pessoalmente, continua a fazer parte do meu imaginário infantil : a cidade cujas ruas são feitas de água está para São Paulo como os unicórnios para os cavalos, os vulcões para as montanhas, os dinossauros para as lagartixas.
E se o chifre do unicórnio não é qualquer chifre, mas uma lança espiralada, inexistente noutros animais, os barcos da cidade aquática tampouco poderiam ser meras lanchas ou canoas : são gôndolas, com suas pontas curvas como as dos sapatos do Sultao d'As Mil e Uma Noites, de Ali Babá e Seus Quarenta Ladrões, dos gênios que surgem da lâmpada, em meio à fumaça, prontos a realizar três desejos.
Alguma semelhança com prateleiras de fórmica e aço inox, caro leitor ?
Não, não, eis aí um atentado contra a língua, uma crime de lesa-poesia que deve ser reparado o quanto antes.
Veja bem : as cidades têm regras para protegê-las da voracidade do mercado.
Planos diretores, leis de zoneamento : ali pode prédio, aqui não.
A propaganda tem leis para conter a falta de escrúpulos dos anunciantes : álcool não deve ser anunciado para menores de idade, cigarros estão proibidos de patrocinar eventos esportivos.
O próprio mercado precisa ser regulado externamente.
As palavras, contudo, quem as protege ?
Ninguém.
Um dia, um infeliz decide batizar as estantes de gôndolas e pronto, o mal está feito.
Trazer a gôndola dos canais de Veneza para as seções de laticínios é, para a linguagem, equivalente a construir um prédio no meio do Ibirapuera, para as cidades.
Uma gôndola de supermercado, meus amigos, é um unicórnio abatido para, do marfim do seu chifre, arrancarem cinzeiros e bolas de sinuca.
Minha bronca com esse sequestro semântico é tanta que, se nesta manhã fria, enquanto escrevo a crônica, me aparecesse um gênio da lâmpada, com seus gondulares sapatões, incluiria no pacote de desejos o pedido para que rebatizasse as prateleiras dos supermercados, restituindo assim à gôndola a grandiosidade arruinada por latões de óleo de soja e saquinhos de Miojo.
Ou os mercadores dão às estantes um nome apropriado - estantário, prateleiral, "trúncio"", por que não ? - e devolvem à humanidade esse belíssimo substantivo, ou lançarei uma ampla contraofensiva na internet, com apoio de poetas, de escritores e da máfia italiana : passaremos a chamar cartão de crédito de avestruz, caixa registradora de asa-delta e crachá de buganville.
Para cada grama de lirismo que nos foi roubado, um grama será devolvido, impiedosamente.

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Publicado na Folha de São Paulo, C2 cotidiano em 24 de agosto de 2011

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